*Cadastro Ambiental Rural não substitui escritura nem matrícula; apuração deverá esclarecer quais documentos permitiram apresentar a área como garantia em operações de crédito*
A repercussão da Operação Canadá, deflagrada pela Polícia Civil de Mato Grosso para investigar suspeitas de fraude envolvendo uma propriedade rural em Confresa, colocou em evidência uma questão importante: qual teria sido o papel do Cadastro Ambiental Rural (CAR) na cadeia documental investigada?
*CAR não comprova propriedade*
O CAR é um registro eletrônico criado pelo Código Florestal para reunir informações ambientais dos imóveis rurais, como perímetro declarado, Reserva Legal, Áreas de Preservação Permanente, vegetação nativa e áreas consolidadas.
Sua natureza é declaratória, e as informações cadastradas são de responsabilidade do declarante. A Lei nº 12.651/2012 estabelece expressamente que a inscrição no CAR não constitui título de propriedade ou de posse.
Portanto, o cadastro ambiental, isoladamente, não transfere uma fazenda, não substitui escritura pública e não altera a titularidade registrada na matrícula do imóvel.
*Investigação aponta uma estrutura documental mais ampla*
Isso não significa que uma eventual fraude no CAR seja irrelevante. A inserção de informações falsas pode produzir consequências administrativas e criminais, além de ser utilizada para conferir aparência de regularidade a determinada área.
No caso investigado em Confresa, entretanto, a Polícia Civil aponta uma possível estrutura documental mais abrangente. Segundo as informações divulgadas sobre a operação, além da suposta inserção de dados fraudulentos no Simcar, teriam sido produzidos documentos cartorários ideologicamente falsos, incluindo procurações públicas, substabelecimentos e escrituras de compra e venda.
O objetivo, conforme a investigação, seria forjar a transferência da titularidade de parte da propriedade rural.
*Matrícula é documento central*
No Brasil, a propriedade de um imóvel não é transferida pela simples elaboração ou alteração de um CAR. Nos negócios realizados entre pessoas vivas, a transferência ocorre com o registro do título no Cartório de Registro de Imóveis competente.
Enquanto o título não é registrado, o vendedor continua sendo considerado legalmente proprietário.
Por isso, a apuração deverá esclarecer qual era a situação da matrícula da Fazenda Canadá, quais documentos foram apresentados para comprovar a propriedade ou a disponibilidade da área e se algum ato chegou a ser registrado no cartório de imóveis.
*Avaliação de R$ 84 milhões não significa dinheiro liberado*
Outro ponto que provocou questionamentos foi o valor de R$ 84 milhões.
De acordo com as informações divulgadas sobre a investigação, um dos cadastros supostamente fraudulentos teria servido de base para uma avaliação rural de R$ 84 milhões, posteriormente apresentada como garantia em tentativas de obtenção de crédito junto a instituições financeiras.
Isso não significa, por si só, que alguma instituição tenha efetivamente liberado R$ 84 milhões. Até o momento, as informações disponíveis tratam de tentativas de obtenção de crédito e do valor atribuído à propriedade.
*Avaliação rural exige outros elementos*
A avaliação de um imóvel rural não deve ser baseada exclusivamente no CAR. Normalmente, o procedimento considera matrícula, cadeia dominial, localização, dimensão da área, capacidade produtiva, benfeitorias, uso do solo, acesso, disponibilidade de água e referências do mercado regional.
Quando uma propriedade é apresentada como garantia bancária, também são realizadas análises documentais, jurídicas, técnicas e financeiras. Dependendo da operação, a instituição pode exigir certidões, laudos de avaliação, georreferenciamento, comprovação da titularidade e ausência de impedimentos registrados na matrícula.
*Perguntas que a investigação deverá responder*
O ponto central do caso, portanto, vai além da existência de um CAR supostamente fraudulento:
Quais documentos permitiram apresentar a área como uma propriedade avaliada em R$ 84 milhões? O que constava na matrícula do imóvel? Quais procurações, escrituras, substabelecimentos e laudos foram utilizados? Algum documento chegou a ser registrado? E qual foi exatamente a participação do CAR nessa cadeia documental?
As respostas são fundamentais para evitar a interpretação equivocada de que seria possível alterar um cadastro ambiental e, somente com isso, transferir uma fazenda, comprovar sua propriedade ou obter dezenas de milhões de reais em financiamento.
Notícias
CAR não transfere propriedade: investigação em Confresa levanta dúvidas sobre avaliação de R$ 84 milhões
FOTO: Divulgação
A investigação permanece em andamento. Os materiais apreendidos ainda deverão passar por perícia e análise, e a responsabilidade individual dos investigados somente poderá ser definida no decorrer do inquérito e de eventual processo judicial, com garantia do contraditório e da ampla defesa.
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